Perfil.

Nome: Wallace Andrioli Guedes
Idade: 21 anos
Cidade: Juiz de Fora - MG
e-mail: wguedes2004@yahoo.com.br

Um filme: Touro Indomável
Um diretor: Martin Scorsese
Um ator: Al Pacino
O que faço da vida: História(UFJF)


Top 5 - 2007:
1- Maria Antonieta
2- Zodíaco
3- Cartas de Iwo Jima
4- A Vida dos Outros
5- Conduta de Risco

Top 5 - 2006:
1- Brokeback Mountain
2- Munique
3- Os Infiltrados
4- Filhos da Esperança
5- O Labirinto do Fauno

Top 5 - 2005:
1- Marcas da Violência
2- Old Boy
3- Menina de Ouro
4- O Aviador
5- O Jardineiro Fiel





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[Sábado, Novembro 29, 2008]


Os Estranhos (The Strangers)
Direção: Bryan Bertino


Os Estranhos é um filme que consegue a proeza de se equilibrar sobre a tênue linha que separa o cinema de horror previsível, alicerçado em lugares-comuns, e o cinema de horror verdadeiramente assustador. Proeza porque, por contar uma história sem grandes novidades, que passa ao espectador a sensação de já ter sido contada inúmeras vezes, o filme do estreante Bryan Bertino surpreende pelo clima sufocante que cria e pelo medo genuíno que gera com seus três vilões, que, acertadamente, não têm suas identidades reveladas a quem assiste ao filme, e que contam com máscaras que aumentam bastante o horror causado pela presença do trio. Bertino acerta também na dinâmica entre o casal de protagonistas, vividos de forma competente por Liv Tyler e Scott Speedman. Por mais previsível que seja, a opção por iniciar a narrativa com o casal em crise funciona de forma significativa, e a relação entre os dois convence suficientemente para nos preocuparmos com seus destinos. No entanto, Os Estranhos também tem problemas, que acabam fazendo com que o filme fique aquém de seu potencial. O maior deles reside no fato de sua narrativa ser quase totalmente estruturada em sustos ao espectador, gerados pela aparição repentina dos assassinos, "metodologia" já utilizada a exaustão por filmes do gênero, especialmente pela saudosa série Pânico. Alguns sustos chegam a funcionar (como o da cena final, indescritível), mas a grande maioria deles são irritantemente previsíveis (há sustos em janelas, em armários, em cômodos escuros, só faltando algum em um espelho, para completar o supra-sumo da previsibilidade). Talvez se Bertino tivesse optado por se aprofundar no horror psicológico gerado pelo clima criado em sua narrativa, Os Estranhos alcançaria maior êxito. Há ainda uma outra questão: assistindo ao filme, não pude deixar de lembrar do genial Funny Games, de Michael Haneke. Primeiramente, por que talvez poderia ter servido de modelo para Bertino no que concerne ao clima de horror psicológico criado, mas, principalmente, porque acabei me pegando a pensar acerca da reflexão proposta por Haneke lá no ano de 1997 (e retomada recentemente por sua refilmagem), acerca do sadismo do espectador de cinema de horror. Porque, creio que até por instinto de sobrevivência (e pela competência do diretor de Os Estranhos em tornar seu casal de protagonistas empáticos), é difícil não torcer por uma vingança por parte dos personagens de Tyler e Speedman contra aqueles que os ameaçam de forma tão cruel; no entanto, não era justamente sobre essa postura que Haneke tentava nos levar a refletir ? Ou seja, não era justamente esse tipo de cinema que o diretor austríaco criticava de forma tão veemente em sua obra-prima ? Enfim, é algo a se pensar, e, por mais que consideremos que Os Estranhos se aproveite dessa "fraqueza" humana para exisitr, é inegável que, mesmo com todos os problemas aqui apontados, Bryan Bertino conseguiu fazer um ótimo filme de terror em sua estréia no cinema. Por outro lado, fica claro que, depois de assistir a Funny Games, fica difícil encarar os filmes do gênero da mesma forma de antes.


por WALLACE ANDRIOLI GUEDES * 8:02 PM

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[Quarta-feira, Novembro 19, 2008]

Nossa Vida Não Cabe num Opala
Direção: Reinaldo Pinheiro


Nossa Vida Não Cabe num Opala é um filme que custa um pouco a engrenar, a envolver o espectador em sua trama e seus personagens. No primeiro terço do filme, tudo parece meio fora do lugar, os atores soam excessivamente caricaturais (por alguns instantes achei que não fosse, pela primeira vez, gostar de uma atuação de Leonardo Medeiros, em cena com aqueles óculos escuros e visual sombrio) e algumas cenas ruins parecem encaminhar o filme de estréia de Reinaldo Pinheiro para a tosqueira (a participação de Dercy Gonçalves, por exemplo, apesar de possuir uma certa graça, se dá em uma cena totalmente esdrúxula e sem motivo para existir). Felizmente, para o filme, entretanto, a partir de um certo momento nos acostumamos com a estranheza dos personagens e nos tornamos simpáticos ao seus dramas, com a montagem inesperada e com a mistura entre dramaticidade e comédia mergulhada em uma atmosfera underground que perpassa a narrativa. E aí o filme deslancha. Jonas Bloch, Leonardo Medeiros, Milhem Cortaz e Maria Luísa Mendonça transformam as primeiras impressões negativas sobre seus personagens em apenas primeiras impressões, entregando mais uma vez desempenhos ótimos, em total sintonia com a proposta de Pinheiro, ao mesmo tempo que os desconhecidos Maria Manoella e Gabriel Pinheiro não devem em nada aos grandes nomes do elenco, emocionando com seus personagens simples mas trágicos. Outro acerto é a trilha sonora, composta com a participação de Mário Bortolotto, autor da peça na qual o filme se baseou: descolada e difícil de esquecer, se encaixa com perfeição ao misto de melancolia e estranheza que assola a família Castilho e aqueles que a cercam. Vale dizer, no entanto, que mesmo com a imensa melhora, o filme não consegue alcançar todo o potencial que possuía, e que há peças destoantes em seu elenco, como a figura fora do tom de Paulo César Peréio: toda vez que o veterano ator entra em cena, Nossa Vida Não Cabe num Opala perde alguns pontos. Mas, ao culminar em um final inesperadamente trágico, que comove, surpreende e causa forte impacto, o filme se eleva a um patamar difícil de se imaginar no decorrer da narrativa, tornando-se uma experiência cinematográfica que, apesar de irregular e possuidora de alguns equívocos, merece ser vivida.


por WALLACE ANDRIOLI GUEDES * 2:06 AM

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[Segunda-feira, Novembro 10, 2008]


007 - Quantum of Solace (idem)
Direção: Marc Forster


Com esse Quantum of Solace, a série 007 continua seu processo, iniciado no excepcional Cassino Royale, de renovação no cinema, estabelecendo um novo início para a saga de James Bond e uma nova configuração para o personagem, mais brutal e inserido em um universo com uma estética mais realista, mais próximo do moderno cinema de ação. Daniel Craig está novamente muito bem no papel, ainda que perca o efeito de novidade responsável por boa parte do impacto de sua atuação no filme anterior, se consolidando como o melhor James Bond do cinema, o que não é pouco (digo isso com todo respeito aos outros intérpretes do personagem, inclusive os clássicos Sean Connery e Roger Moore, mas baseando meu julgamento no fato de considerar as opções estéticas, narrativas e dramáticas desses novos filmes de Bond as mais acertadas para compor seu universo, um universo no qual o 007 interpretado por tais atores não encaixaria). No entanto, é preciso dizer que Quantum of Solace é visivelmente inferior ao longa anterior, que parece ter realmente estabelecido um novo padrão a ser alcançado na série. E é bem provável que o principal responsável por isso seja o diretor desse novo filme, o mais que eclético Marc Forster. Não que Forster não seja um bom diretor (A Última Ceia e Em Busca da Terra do Nunca estão aí para mostrar que ele tem talento), mas ele se mostra visivelmente deslocado em um gênero ainda não experimentado por ele, e que tem muito pouco a ver com seu cinema feito até aqui, mesmo levando em conta todo seu ecletismo. Esse deslocamento se reflete em cenas de ação excessivamente rápidas e confusas, e em alguns momentos verdadeiramente desnecessários (a perseguição de avião e a queda no deserto, por exemplo). É bem verdade que o roteiro do trio Paul Haggis, Neal Purvis e Robert Wade, dessa vez, peca pela excessiva simplicidade (num contraste assustador com toda a complexidade da trama de Cassino Royale), o que acaba tolhindo de certa forma as possibilidades criativas de Forster, e é verdade também que o diretor consegue também criar bons momentos, como a impressionante seqüência da ópera. No entanto, me parece inegável que sua escolha não foi realmente um acerto. Mas, ao menos, Quantum of Solace funciona como filme de ação, tenso e envolvente, e como continuação digna do excelente longa anterior de Bond, inclusive abrindo possibilidades intrigantes para o futuro da série (o próximo filme tem tudo para ser particularmente surpreendente). E, no fim das contas, continua sendo muito superior a algumas outras investidas do personagem no cinema, especialmente as estreladas por Pierce Brosnan.


por WALLACE ANDRIOLI GUEDES * 10:05 PM

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[Quinta-feira, Novembro 06, 2008]

OSCAR 2009 - PREVISÕES

Sempre fui meio maníaco pelo Oscar, desde muito novo, e estou sempre fazendo minhas previsões sobre os possíveis indicados, ainda que nunca tenha publicado-as. Nesse ano resolvi perder a vergonha e explicitar as minhas apostas, que foram feitas baseadas tanto em algumas opiniões que já pipocam pela internet, quanto em minhas prórprias impressões e expectativas quanto à premiação do ano que vem. E vale dizer também que optei por apontar somente minhas apostas nas categorias principais do Oscar, deixando de lado os prêmios técnicos.


FILME:



1. The Wrestler
2. The Curious Case of Benjamin Button
3. Revolutionary Road
4. O Casamento de Rachel
5. Frost/Nixon


DIRETOR:



1. Darren Aronofsky (The Wrestler)
2. David Fincher (The Curious Case of Benjamin Button)
3. Jonathan Demme (O Casamento de Rachel)
4. Steven Soderbergh (Che)
5. Clint Eastwood (Gran Torino)


ATOR:



1. Mickey Rourke (The Wrestler)
2. Frank Langella (Frost/Nixon)
3. Sean Penn (Milk)
4. Benicio Del Toro (Che)
5. Brad Pitt (The Curious Case of Benjamin Button)


ATRIZ:



1. Anne Hathaway (O Casamento de Rachel)
2. Meryl Streep (Doubt)
3. Kate Winslet (Revolutionary Road)
4. Angelina Jolie (A Troca)
5. Sally Hawkins (Happy-Go-Lucky)


ATOR COADJUVANTE:



1. Heath Ledger (Batman - O Cavaleiro das Trevas)
2. Brad Pitt (Queime Depois de Ler)
3. James Franco (Milk)
4. Michael Shannon (Revolutionary Road)
5. Philip Seymour Hoffman (Doubt)


ATRIZ COADJUVANTE:



1. Penélope Cruz (Vicky Cristina Barcelona)
2. Taraji P. Henson (The Curious Case of Benjamin Button)
3. Marisa Tomei (The Wrestler)
4. Rosemary DeWitt (O Casamento de Rachel)
5. Amy Adams (Doubt)


ROTEIRO ORIGINAL:



1. O Casamento de Rachel
2. The Wrestler
3. Gran Torino
4. Vicky Cristina Barcelona
5. Queime Depois de Ler


ROTEIRO ADAPTADO:



1. The Curious Case of Benjamin Button
2. Slumdog Millionaire
3. Revolutionary Road
4. Frost/Nixon
5. Doubt


FILME ESTRANGEIRO:




1. Gomorra (ITA)
2. Waltz with Bashir (ISR)
3. Entre Les Murs (FRA)
4. Tulpan (CAZ)
5. Nosso Querido Mês de Agosto (POR)


ANIMAÇÃO:



1. Wall-E
2. Waltz with Bashir
3. Kung Fu Panda



por WALLACE ANDRIOLI GUEDES * 10:38 PM

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[Quarta-feira, Novembro 05, 2008]


OUTROS FILMES - OUTUBRO

Esses foram os filmes que assisti em outubro e que ainda não haviam sido comentados aqui:


Antes da Revolução (Prima della Rivoluzione)
Direção: Bernardo Bertolucci


A Chinesa (La Chinoise)
Direção: Jean-Luc Godard


A Outra (The Other Boleyn Girl)
Direção: Justin Chadwick


O Amor Não Tem Regras (Leatherheads)
Direção: George Clooney


Apenas Uma Vez (Once)
Direção: John Carney


Baixio das Bestas
Direção: Cláudio Assis


Amarelo Manga
Direção: Cláudio Assis


Os Reis da Rua (Street Kings)
Direção: David Ayer


Instinto Secreto (Mr. Brooks)
Direção: Bruce A. Evans


Exílios (Exils)
Direção: Tony Gatlif


Antes que o Diabo Saiba que você Está Morto (Before the Devil Knows You're Dead)
Diretor: Sidney Lumet



Belíssimo filme de Bernardo Bertolucci, em início de carreira, Antes da Revolução é um sensivel e contundente retrato de uma geração sonhadora, mas cheia de falhas. A narrativa pausada, a fotografia em preto e branco e as belas imagens entre o casal de protagonistas fazem do filme uma pequena obra-prima. Essas imagens, aliás, transformam Antes da Revolução em uma obra que é, antes de um filme sobre os jovens politizados da década de 1960 (algo que Bertolucci faria de forma mais poderosa e impressionante cerca de 40 anos depois, na obra-prima Os Sonhadores), uma grande e bela história de amor. Já A Chinesa, de Godard, consegue ser esse retrato da juventude européia dos anos 60, de uma forma tão contundente quanto Os Sonhadores, por exemplo (ainda que sejam filmes muito diferentes). O cineasta francês faz, como de costume em sua filmografia, um filme ousado e difícil de se assistir, no sentido de possuir uma linguagem fragmentada e nada convencional, ainda que seja mais acessível do que trabalhos como Acossado, Alphaville e Je Vou Salue, Marie (os outros filmes que assisti de Godard). De forma ácida e brincalhona, mas nunca deixando de lado a importância do tema tratado, Godard faz um filme-registro da influência do maoísmo na juventude de esquerda da França, o que não deixa de ser um prenúncio do que estava por vir, já que a ideologia da Revolução Cultural Chinesa foi de grande importância nos movimentos de maio de 1968. É um ótimo trabalho, irônico e jovial de uma forma como ainda não havia presenciado na obra de Godard, obra essa que, admito, necessito conhecer mais a fundo.
A Outra é um drama de época correto, com alguns acertos, mas que comete alguns pecados que comprometem totalmente sua qualidade. O diretor Justin Chadwick e o roteirista Peter Morgan acertam na construção dos personagens, especialmente ao optar por não transformar Henrique VIII simplesmente em um rei ambicioso e pervertido, dando a ele uma face mais humana, ainda que suas características mais conhecidas também estejam lá (e merece destaque a boa interpretação de Eric Bana, que também contribui para essa humanização do rei). Diretor e roteirista também acertam na relação estabelecida entre as irmãs Bolena (vividas por uma cada vez melhor Natalie Portman e por uma apagada Scarlett Johansson), mas pecam grandemente ao apostarem exageradamente no filme enquanto um "drama histórico", quando funcionaria muito melhor como um espécie de thriller político de época, como foi o inesquecível Elizabeth, de 1998 (sua continuação, A Era de Ouro, incorreu no mesmo erro desse A Outra). E pode parecer implicância de historiador, mas o filme peca profundamente ao se omitir de mostrar o desenrolar dos acontecimentos envolvendo o rompimento do rei inglês com a Igreja Católica e a conseqüente fundação da Igreja Anglicana, um momento que poderia funcionar como ápice dramático das intrigas políticas dessa história (que, como já disse, também deveriam ter sido mais exploradas), além de ressaltar a importância assumida pela figura de Ana Bolena na história da Inglaterra. Do jeito que ficou, com tudo sendo mostrado de forma apressada, A Outra se tornou apenas mais do mesmo.
É difícil conter a frustração ao assistir a esse O Amor Não Tem Regras, nova investida de George Clooney na direção. Isso porque, em seus dois primeiros trabalhos nessa função, Clooney havia demonstrando um surpreendente talento, criando duas pequenas jóias do cinema norte-americano recente, dois filmes poderosos e marcantes: Confissões de Uma Mente Perigosa e Boa Noite e Boa Sorte. Mas, aqui, o diretor aposta em uma comédia romântica absolutamente convencional, que tenta, não com muito sucesso, resgatar o charme das comédias românticas da antiga Hollywood, inclusive com Clooney interpretando uma espécie de Cary Grant. E o pior é que a história apresentada por Clooney, sobre os primórdios do futebol americano profissional, poderia render um filme sério e relevante, ao invés de uma comédia bobinha como essa. Que fique claro: O Amor Não Tem Regras não é exatamente um filme ruim, pelo contrário, é até divertido e gostoso de se assistir. Mas comete pecados com os quais não imaginávamos ligar o nome de George Clooney: convencionalismo, tradicionalismo e previsibilidade em excesso.
Apenas Uma Vez é o que pode ser chamado de um filme verdadeiramente musical. Não só no sentido de os personagens cantarem durante o filme (algo que acontece aqui, mas não tendo as música como substituta dos diálogos, como na maneira tradicional do gênero), mas por ter a música como personagem fundamental na história contada. E isso não se dá simplesmente pelo fato de os protagonistas serem músicos, mas sim por todos os sentimentos envolvidos na bela história de amor contada pelo diretor John Carney serem expressos através das sofridas canções compostas sofrido sujeito vivido com talento e carisma por Glen Hansard. E é essa escolha que faz com que esse filme simples, porém profundamente verdadeiro em seus sentimentos, seja tão marcante e gostoso de se assistir. As músicas de Hansard, especialmente a linda "Falling Slowly" (vencedora do Oscar), expressam com delicadeza e sensibilidade toda a simplicidade desse semtimento tão simples, mas ao mesmo tempo tão complexo, que é o amor.
O cinema de Cláudio Assis se equilibra entre uma visão de mundo visceral e poderosa, capaz de provocar e causar incômodo verdadeiro no espectador, e uma pretensão irritante de ser polêmico, que pode transformar seus filmes em algo dispensável. Curiosamente, esses dois primeiros trabalhos do diretor refletem bem essa dubiedade: Amarelo Manga, primeiro longa de Assis, é poderoso, envolvente, e marcante, um dos melhores longas do cinema brasileiro recente, enquanto Baixio das Bestas é excessivamente pretensioso, contém cenas desnecessárias e histórias e personagens que não se justificam, o que faz com que o filme seja apenas uma tentativa aborrecida de criar polêmica. Um bom exemplo é Matheus Naschtergaele: se em Amarelo Manga ele tem uma das melhores interpretações de sua carreira como o homossexual Dunga, em Baixio das Bestas ele vive um "agro boy" carregado de clichês e que parece estar ali só para Assis expôr, de forma mal feita, uma crítica aos jovens endinheirados das zonas rurais nordestinas. Portanto, até agora fica difícil definir como bom ou ruim o cinema de Cláudio Assis, ainda que o impacto positivo de Amarelo Manga seja maior do que o negativo de Baixio das Bestas (até porque este não é um filme totalmente ruim, tendo alguns pequenos acertos, especialmente na história do avô que explora sexualmente a neta, uma história que, se fosse tomada como centro narrativo do filme, poderisa torná-lo uma obra infinitamente melhor). A maneira como o diretor trafega pelo universo marginal-urbano daqueles personagens, a naturalidade com que lida com o bizarro e o talento em arrancar ótimas interpretações de seu elenco lembram um pouco o talento gigantesco de David Lynch. Explorando melhor essa sua faceta, Assis tem tudo para se tornar um grande cineasta.
Os Reis da Rua é uma espécie de Tropa de Elite norte-americano mais light, com um elenco de grandes nomes, mas todos pouco inspirados (Forest Whitaker, por exemplo, exagera na composição de seu personagem, quase nos fazendo esquecer de que estamos diante do ator que deu vida de forma assustadora a Idi Amin há dois anos, enquanto Keanu Reeves passa o filme inteiro em sua costumeira apatia), e totalmente alicerçado em clichês do cinema policial. O roteiro de James Ellroy até possui personagens e situações interessantes, mas tudo é tão mal desenvolvido pelo diretor David Ayer, tudo é tornado tão previsível, que o filme quase desanda totalmente. Sobrevivem ao desastra alguns bons momentos de tensão criados pelo roteiro de Ellroy (como a investigação dos personagens de Reeves e Chris Evans acerca da identidade da dupla de criminosos que assassinou o parceiro do primeiro, e que acaba culminando em uma boa cena de tiroreio) e a questão colocada acerca do papel de policiais como o vivido por Reeves, questão interessante e que, apesar de mal desenvolvida, gera discussões interessantes, como o já citado Tropa de Elite provou.
Instinto Secreto é o tipo do filme que, em pouco tempo, será exibido exaustivamente nas noites de sábado na TV brasileira. O filme de Bruce A. Evans é o suprasumo do clichê do gênero suspense. Serial killer com dupla personalidade, chantagem, policial durona investigando os assassinatos e vivendo complicações em sua vida pessoal ... quantas vezes já não vimos isso tudo antes ? Pois é, mas Evans junta todos esses lugares-comuns para construir um filme que até prende a atenção do espectador em alguns momentos (especialmente quando a personagem de Demi Moore, absurdamente desinteressante e irritante, não está em cena), mas que, no geral, é uma grande bobagem. Kevin Costner e Willian Hurt se esforçam para não caírem no ridículo, enquanto a já citada Moore mostra mais uma vez o quanto é uma péssima atriz. Com tudo isso, Instinto Secreto é, acima de tudo, um filme muito, muito ruim. E só.
Exílios é um filme, antes de qualquer coisa, impressionante. Com uma história absurdamente simples, alicerçada na velha fórmula do road movie, o argelino Tony Gatlif entrega uma obra obstinada, pulsante e poderosa da primeira à última cena. Gatlif passeia pelo universo dos imigrantes argelinos, dos ciganos e de outros setores marginalizados na comunidade européia com imensa desenvoltura, fazendo com que aquela viagem do casal de protagonistas ecoe como uma viagem do próprio diretor em busca de uma identidade perdida, e ele nos leva juntos nessa sua busca. Mas Exílios é um filme que, ao menos em minha visão, só faz sentido completamente ao alcançar seu clímax, na seqüência da festa/ritual islâmica acompanhada pelo protagonistas. É ali, naquela seqüência longa, exaustiva e extasiante, que Gatlif parece finalmente encontrar o que ele buscava, fazendo com seus personagens finalmente também se encontrem e se descubram, para si próprio e um para o outro. É nessa seqüência impressionante também que a atuação magistral da bela Lubna Azabal é coroada. É graças, principalmente, a ela que sentimos a intensidade e importância daquele momento para os personagens, para Gatlif e para Exílios. E é ali que o filme se torna a pequena obra-prima que é.
Não deixa de ser surpreendente ver Sidney Lumet, responsável por tantos clássicos do cinema norte-americano (12 Homens e uma Sentença, Um Dia de Cão, Serpico, entre outros), mas já há algum tempo relegado a um certo ostracismo (até pelo fato de não fazer nada memorável nos últimos anos), retornar com tamanho fôlego nesse maravilhoso Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto. Pode-se creditar parte do êxito do filme ao excelente roteiro, que talvez por ser o trabalho de estréia de Kelly Masterson, tenha dado esse novo fôlego a Lumet, mas são inegáveis, ao se assistir ao filme, os méritos do diretor. Primeiramente, na condução de um elenco estupendo, irretocável. Lumet faz aqui um dos melhores trabalhos de direção de atores visto no cinema recente, o que dá resultado a pelo menos uma atuação memorável (ainda que todos estejam absurdamente bem em cena): a de Philip Seymour Hoffman. O ator incorpora seu personagem de uma maneira impressionante, explodindo na frente do espectador com todas as suas tensões e frustrações contidas por toda uma vida, e que acabam sendo extravazadas em duas cenas maravilhosas, uma no carro, ao lado de uma ótima Marisa Tomei, e outra sozinho, na casa do personagem. Talvez seja, ao lado de Capote, o melhor desempenho da carreira do ator. E Lumet também dá show na forma como conduz a trama de seu filme, com suas diversas idas e vindas no tempo, e com seu final trágico e melancólico, protagonizado por um marcante Albert Finney. No fim das contas, o que o veterano diretor fez com Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto foi criar um amargo e poderoso tratado sobre família, culpa, crime e castigo que, com todo o respeito e admiração que tenho por Woody Allen, faz de seu semelhante, e excelente, O Sonho de Cassandra, uma experiência bem menor.


Melhor: Exílios e Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto
Pior: Instinto Secreto


por WALLACE ANDRIOLI GUEDES * 1:06 AM

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[Terça-feira, Novembro 04, 2008]


PRIMEIRO PLANO 2008 - FESTIVAL DE CINEMA DE JUIZ DE FORA E MERCOCIDADES - BOLETIM FINAL

PREMIADOS

Melhor filme: Os Sapatos de Aristeu
Melhor documentário: Gladys
Melhor direção: Luiz René Guerra por Os Sapatos de Aristeu
Melhor roteiro: Cristiano Abud e Gilberto Scarpa por Os Filmes que Não Fiz
Melhor fotografia: Carlos Ebert por Satori Uso
Melhor montagem: Gilberto Scarpa por Os Filmes que Não Fiz
Melhor trilha: Ronaldo Gino por Os Filmes que Não Fiz
Melhor ator: Adilson Maghá por Oxicianureto de Mercúrio
Melhor atriz: Berta Zemel por Os Sapatos de Aristeu
Melhor direção de arte: Carlos Nunes por Coda
Melhor concepção sonora: Marconi Loures de Oliveira por O Povo Atrás do Muro
Melhor primeiro plano: O Cineasta, a Menina e o Homem-Sanduíche


CONSIDERAÇÕES FINAIS

Infelizmente, mais uma vez não consegui acompanhar todos os filmes do Primeiro Plano, até porque, nessa edição, ocorreu a exibição simultânea (e sem reprise) de filmes em diferentes cinemas, o que acabou por acarretar perdas, já que não consegui assistir a pelo dois longas que tenho muito interesse: Nossa Vida Não Cabe num Opala e Loki - Arnaldo Baptista, que foram exibidos exatamente no mesmo horário de, respectivamente, Ainda Orangotangos e A Casa de Alice. De qualquer forma, vale destacar que essa foi a edição do Festival em que mais assisti longas, num total de seis, e foi também a primeira vez que consegui acompanhar, ainda que não em sua totalidade, a mostra competitiva nacional de curtas. Por não estar presente em todos os dias dessa mostra, acabei não assistindo justamente aos dois curtas mais premiados, Os Sapatos de Aristeu e Os Filmes que Não Fiz. Mas, ainda assim, analisando a premiação, fico feliz de ter visto a consagração da belíssima fotografia de Satori Uso e do impressionante visual de Coda, assim como a vitória do bom documentário Gladys. Lamento apenas a derrota de Elke, nessa última categoria, e do belo Do Mesmo Lado do Muro, como curta de ficção.
É isso. Agora, só no ano que vem. E fico na expectativa de que os filmes que não consegui assistir nesse Primeiro Plano 2008 entrem em cartaz nos cinemas de Juiz de Fora.




por WALLACE ANDRIOLI GUEDES * 12:22 AM

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[Domingo, Novembro 02, 2008]


PRIMEIRO PLANO 2008 - FESTIVAL DE CINEMA DE JUIZ DE FORA E MERCOCIDADES - BOLETIM Nº 3


XXY (idem)
Direção: Lucía Puenzo


O Banheiro do Papa (El Baño del Papa)
Direção: César Charlone e Enrique Fenández


XXY é um bom drama argentino, que possui uma temática não muito usual no cinema (a história de uma menina que nasce com ambos os sexos), mas que acaba sendo abordada de uma forma não muito original. É basicamente um filme sobre preconceito, como tantos que existem por aí, inclusive repetindo alguns clichês básicos sobre o tema. Mas, que fique explícito, isso não diminui em nada sua importância, até porque, se refletirmos bem, talvez esses clichês sejam tão utilizados porque tais preconceitos continuam se reproduzindo em nossas sociedades. De qualquer forma, mesmo não sendo, então, um filme tão original, vale destacar que XXY conta, pelo menos, com a sensibilidade característica do cinema argentino contemporâneo, o que acaba refletindo diretamente em algumas escolhas bastante maduras da diretora estreante Lucía Puenzo, especialmente em seu belo final.
Talvez não faça muito sentido, mas em diversos momentos de O Banheiro do Papa me veio à mente a obra-prima de Walter Salles Diários de Motocicleta, como um referência palpável para essa estréia na direção de César Charlone (em parceria com Enrique Fernández). Apesar de possuírem temáticas tão diversas, os filmes de Charlone/Fernández e de Salles compartilham um olhar carinhoso aos povos latino-americanos, carinhoso mas altamente politizado, tendo a questão do subdesenvolvimento como importante para suas narrativas, ainda de forma implícita em muitos momentos. E compartilham também uma certa leveza para contar essas história de subdesenvolvimento, leveza tão característica da forma como esses povos levam suas duras vidas adiante. O filme tem problemas sim, desenvolve algumas situações de maneira não totalmente satisfatória, mas tem um mérito que, por si só, o torna grande: é irresistível.


por WALLACE ANDRIOLI GUEDES * 12:43 AM

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[Sexta-feira, Outubro 31, 2008]

PRIMEIRO PLANO 2008 - FESTIVAL DE CINEMA DE JUIZ DE FORA E MERCOCIDADES - BOLETIM Nº 2

Longas:

A Casa de Alice
Direção: Chico Teixeira


Ainda Orangotangos
Direção: Gustavo Spolidoro


Parecido em alguns aspectos com o maravilhoso Linha de Passe, A Casa de Alice, assim como o filme de Walter Salles e Daniela Thomas, impressiona pela sensibilidade e simplicidade com que trata seus personagens e sua história. O que chama atenção, no entanto, é que Chico Teixeira encontrou o tom certo para tal tipo de filme já em seu primeiro longa, o que é um mérito gigantesco. Impactante sem ser sensacionalista, corajoso sem ser pretensioso, complexo, mesmo que simples, A Casa de Alice é um filme que consegue a proeza de, mesmo possuindo uma narrativa onde pouca coisa acontece (no sentido tradicional das narrativas, com reviravoltas e/ou mudanças nos personagens ou na trama), conquistar absolutamente o espectador para a história contada, colocando-nos no interior da vida daquela família de classe média baixa. E, boa parte desse êxito, está em seu elenco, encabeçado por uma estupenda Carla Ribas. É graças a esse elenco que nos sentimos tão próximos de Alice e de seus familiares, ainda que compartilhamos e sintamos a distância que os separa. Belo filme.
Mesmo que fosse um filme ruim em seu conteúdo, Ainda Orangotangos mereceria aplausos siplesmente pela coragem do diretor Gustavo Spolidoro de realizar um longa inteiro em um só plano-seqüência (algo que, até onde sei, nunca havia sido feito no cinema brasileiro). Mas o melhor de tudo é que o filme apresenta personagens interessantíssimos, envolvidos em situações bizarras, que vai desde o horror angustiante do pesadelo de uma mulher doente à bizarrice da história que encerra o longa. E é importante dizer que, mais do que apenas um exibicionismo estético, a utilização do plano-seqüência único para construir a narrativa de Ainda Orangotangos é totalmente justificável, funcionando como um recurso narrativo de extrema importância para a apresentação daqueles personagens e para o funcionamento das cenas conforme desejava o diretor. Só é uma pena que personagens tão interessantes não tenham outros momentos de suas trajetórias apresentados por Spolidoro, uma vez que é difícil não existir curiosidade acerca do que teria acontecido com alguns deles.


Curtas:

Elke
Direção: Júlia Rezende

Gladys
Direção: Marina Pessanha

Do Mesmo Lado do Muro
Direção: Bruno Carvalho

O Povo Atrás do Muro
Direção: Marconi Loures de Oliveira

Divergrandpa
Direção: Igor Amin

Até Amanhã
Direção: André Bomfim

A Ética
Direção: Pablo Villaça

Palhaços
Direção: Wertem Tawera


Essa segunda leva de curtas foi muito mais recompensadora do que a anterior. Há aqui dois bons documentários, Elke e Gladys, ambos sobre mulheres artistas que tiveram um grande espaço na mídia em tempos passados, mas que acabaram caindo no esquecimento (especialmente a protagonista do segundo filme, que foi a primeira apresentadora de programas infantis da TV brasileira), e que se utilizam desse espaço concedido pelos curtas para relembrarem grandes momentos e reforçarem sua importância na cultura midiática brasileira. É bem verdade que elas fazem isso de formas totalmente diferentes (Elke Maravilha, por exemplo, está longe de demonstrar a nostalgia que a ex-apresentadora Gladys demonstra), e que o curta Elke se destaca na comparação, especialmente por contar com uma protagonista tão fascinante, que mereceria, sem nenhuma dúvida, protagonizar um longa-metragem, fosse ele de ficção ou não.
Surge aqui também o primeiro curta que realmente me encantou nesse festival, Do Mesmo Lado do Muro, do gaúcho Bruno Carvalho. Na verdade, não há nada de inovador ou genial em seu filme, mas o que o torna tão bom é a capacidade do diretor em retratar aquele universo jovem mostrado no filme com naturalidade e desenvoltura, com um clima melancólico e jovial ao mesmo tempo. Lembra, em muito, o cinema mais recente de Gus Van Sant (especialmente Paranoid Park), o que é um grande elogio.
O Povo Atrás do Muro e Divergrandpa são engraçadinhos, e só, sendo o primeiro ainda um pouco melhor. Até Amanhã é bem filmado, mas é excessivamente clichê, tratando de um amor não realizado de uma forma muito convencional, tradicionalmente utilizada em novelas e filmes adolescentes. Ao menos tem um bom final.
A Ética, do crítico de cinema Pablo Villaça, é um ótimo exercício cinematográfico. É um suspense tenso na medida certa e envolvente, e que consegue, nos seus poucos minutos de duração, criar história e personagens instigantes e surpreendentes. Só peca por exagerar nos diálogos explicativos em alguns momentos, que acabam soando artificiais. Por outro lado, vale dizer que é muito bem filmado.
Por fim, Palhaços é interessante, tem uma história interessante, mas possui uma vontade excessiva de passa uma mensagem, o que acaba comprometendo seu resultado final.


por WALLACE ANDRIOLI GUEDES * 1:54 AM

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[Quarta-feira, Outubro 29, 2008]


PRIMEIRO PLANO 2008 - FESTIVAL DE CINEMA DE JUIZ DE FORA E MERCOCIDADES - BOLETIM Nº 1

Começou no último dia 27/10 a sétima edição do Primeiro Plano - Festival de Cinema de Juiz de Fora e Mercocidades, festival este que terá atividades até o dia 02/11. Seguem abaixo minhas impressões sobre os primeiros filmes vistos no festival.

Longas:

Titãs, a Vida até Parece uma Festa
Direção: Branco Mello e Oscar Rodrigues Alves


Vingança
Direção: Paulo Pons


Titãs, a Vida até Parece uma Festa é um documentário simples em forma e conteúdo, mas que acerta imensamente ao ser construído todo a partir de imagens captadas por Branco Mello, membro dos Titãs (e um dos diretores do filme, ao lado de Oscar Rodrigues Alves), durante toda a carreira da banda. Essa forma de estruturar a narrativa faz com que ela se afaste de um formalismo excessivo, no qual um documentário como esse poderia facilmente cair. Do jeito que foi feito, o documentário tem a grande vantagem de conseguir passar a impressão de ser, acima de qualquer coisa, o registro de uma grande festa, que é a trajetória dos Titãs, ao invés de ser uma biografia tradicional.
Vingança é um filme de erros e acertos, sem que estes se sobrepujem sobre aqueles ou vice-versa. Filmado com baixo orçamento, mas com uma competência impressionante por Paulo Pons (especialmente no uso da tecnologia digital), o filme é fraco, principalmente, em sua trama, na maior parte das vezes previsível e alicerçada em clichês e, inclusive, em alguns personagens estereotipados (como o jovem vivido por Emiliano Ruschel). No entanto, o filme de Pons acerta principalmente na construção de seus protagonistas, especialmente na relação entre Branca Messina (deslumbrante) e Erom Cordeiro, sendo este, aliás, a grata surpresa do elenco, construindo uma figura enigmática e profundamente angustiada que, quando revela o porquê de todo seu sofrimento, carrega o espectador junto para o interior de seu dilema. Há ainda uma participação curta mas marcante de José de Abreu, que faz de um personagem estereotipado um sujeito assustador e verdadeiro. Ainda que chegue perto de perder o tom próximo ao seu final, Vingança acaba conseguindo encerrar-se da maneira mais apropriada, demonstrando a maturidade de Pons ao construir essa história. História que consegue, apesar de todos seus escorregões, envolver o espectador, o que já é, por si, um grande mérito.


Curtas:

Urbe
Direção: Marcos Pimentel

Poema Sujo
Direção: Nicolas Viggiani

Criador de Imagens
Direção: Diego Hoefel e Miguel Freire

Lúmen
Direção: Willian Salvador

Coda
Direção: Marcos Camargo

Amolador
Direção: Abelardo de Carvalho

Páginas de Menina
Direção: Monica Palazzo

Os Boçais
Direção: Lufe Bollini

Satori Uso
Direção: Rodrigo Grota

Quanto aos curtas, até agora não há muito que mereça ser destacado. Nessa primeira leva de filmes, tem-se de ruim, por exemplo, a ausência de substância e a excessiva vontade de ser vanguardista do juizforano Urbe e as bobagens de Os Boçais, filme que tenta ter um estilo próximo a um Tarantino mais avacalhado, mas que acaba caindo em uma espécie de “Tela Class” (programa do grupo Hermes & Renato, da MTV) sem tanta graça.
Amolador e Criador de Imagens são apenas razoáveis. Quanto ao segundo, há de se lamentar que, ao ter como objeto o diretor de fotografia Mário Carneiro, os diretores não tenham se aprofundado na carreira desse gênio do cinema brasileiro, perdendo uma bela oportunidade de explorar mais a fundo sua relação fascinante e curiosa com o cineasta Joaquim Pedro de Andrade.
Há filmes simples, porém satisfatórios, como a animação Lúmen, graciosa e engraçada, Poema Sujo, bem filmado mas excessivamente formal (ainda mais se tratando de um filme sobre Ferreira Gullar), Coda, dono de um visual esplendoroso, e o sensível Páginas de Menina, que me parece ser capaz de ser muito melhor caso fosse um longa-metragem (uma vez que conta com uma história de amor que, se bem desenvolvida, pode se tornar um pequena jóia do cinema brasileiro).
E há, por fim, o mais complexo de todos eles: Satori Uso. Complexo por ter, por trás de suas bela imagens em preto e branco, um aspecto que beira a genialidade: o fato de o diretor Rodrigo Grota ter, na realidade, inventado os personagens retratados em seu filme, tanto o poeta japonês Satori Uso quanto o cineasta marginal norte-americano Jim Kleist. É na forma como Grota brinca com realidade e ficção para fazer um filme belo e profundo que está guardada a grande beleza desse curta.


por WALLACE ANDRIOLI GUEDES * 9:33 AM

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[Segunda-feira, Outubro 27, 2008]


Última Parada 174
Direção: Bruno Barreto


É interessante notar como uma mesma história pode dar origem a dois filmes tão diferentes, em forma, conteúdo e qualidade. A tragédia do seqüestro do ônibus 174, ocorrido no Rio de Janeiro em 2000, e a vida ainda mais trágica de Sandro Nascimento, o seqüestrador, foi tema do documentário de José Padilha (pré-Tropa de Elite) Ônibus 174, lançado em 2002. Naquele filme, Padilha promovia um assustador retrato da sociedade brasileira, da desigualdade social que se reproduz em seu interior; contava a história de Sandro de forma comovente (algo que ela é, indiscultivelmente), apresentando-o como resultado dessa imensa desigualdade e como uma espécie de lembrete para determinados setores de nossa sociedade de que existem pessoas esmagadas diariamente por tal desigualdade; e, por fim, reproduzia com impressionante tensão, e com riqueza de detalhes, os acontecimentos envolvendo o seqüestro do citado ônibus, transformando um documentário em praticamente um thriller. Eis que, seis anos depois de Padilha, é a vez de Bruno Barreto colocar as mãos na história de Sandro, para, dessa vez, contá-la de forma ficcionalizada. Como dito, a história de um menino que teve sua mãe assassinada brutalmente, sobreviveu ao terrível massacre da candelária e passou pelo sistema prisional brasileiro (entre outros percalçoes enfrentados em sua curta vida) é naturalmente comovente e impactante, mas é preciso dizer que Última Parada 174 está longe de ser o filme que poderia ser. Especialmente para quem assistiu ao documentário de Padilha, ficará difícil apreciar o trabalho de Barreto. O diretor até acerta em determinados pontos: primeiramente, ao fugir de uma abordagem excessivamente sentimental (algo que, sinceramente, esperava que fosse acontecer), realizando um filme melancólico; na escolha do elenco, quase todo formado por atores não-profissionais, e encabeçado pelo espetacular Michel Gomes, que consegue transformar Sandro em uma figura palpável, tristemente real; e até mesmo ao optar por um ponto de partida curioso, baseado não no episódio do seqüestro em si, mas na trajetória daquele sujeito, e na busca de uma mãe por seu filho e de um filho por sua mãe. No entanto, Barreto comete alguns deslizes graves, que comprometem seriamente Última Parada 174. E o principal deles diz respeito à sua incapacidade em causar todo o impacto que o filme de Padilha causava no espectador. Ao final de Ônibus 174, fica difícil para o espectador não se sentir como lixo, tamanha a força do soco no estômago que é o documentário. Em Última Parada 174, isso está longe de acontecer. E creio que contribuem substancialmente para isso duas seqüências do filme, de fundamental importância, mas profundamente mal conduzidas por Barreto: em primeiro lugar, todas as cenas envolvendo o seqüestro do ônibus, que deveriam funcionar como o clímax atordoante da história de Sandro, mas que é mostrada com excessiva pressa, contando demasiadamente com o prévio conhecimento do espectador acerca de seus detalhes; e, em seguida, a desastrosa cena final do filme, absurdamente forçada e que chega perto de destruir por completo todos os méritos de Última Parada 174. São detalhes que podem parecer pequenos, mas que acabam fazendo a diferença em um filme que tinha a dura tarefa de alcançar a força que Ônibus 174 havia alcançado. E que, infelzimente, não conseguiu tal feito.


por WALLACE ANDRIOLI GUEDES * 1:00 AM

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[Sábado, Outubro 18, 2008]


As Duas Faces da Lei (Righteous Kill)
Direção: Jon Avnet


Ter Al Pacino e Robert De Niro em seu elenco já deveria bastar para qualquer filme se tornar grande. Infelizmente, As Duas Faces da Lei nos mostra que não é bem assim: sem uma boa história e, principalmente, um diretor talentoso por trás das câmeras, os dois monstros da interpretação tendem a se entregar aos seus já conhecidos maneirismos, repetidos à exaustão nos últimos anos, anos esses de pouca inspiração para a dupla, especialmente para De Niro (já que Al Pacino entregou recentemente uma interpretação estupenda e visceral no pouco valorizado O Mercador de Veneza, e deu show de entretenimento em Treze Homens e um Novo Segredo). Com o fraco Jon Avnet na direção, uma história que poderia levantar questões morais e legais interessantes e apresentar personagens com alto grau de complexidade acaba sendo absurdamente subaproveitada, resultando em um thriller policial extremamente comum, mergulhado em clichês do gênero. E Pacino e De Niro, ambos no piloto automático, não podem fazer muito para mudar isso. É bem verdade que a dinâmica entre os dois até funciona, rendendo inclusive alguns diálogos divertidos que revelam uma curiosa intimidade e sintonia entre eles, e que De Niro surpreende em alguns momentos, trazendo à tona relances do grande ator que todos sabem que ele é, o que acaba por ofuscar Pacino, exagerado como de costume (vale dizer que o personagem de De Niro é muito melhor desenvolvido pelo roteiro de Russell Gerwitz). Mas a incompetência de Avnet supera essas poucas qualidades do filme e As Duas Faces da Lei consegue cometer o pecado de desperdiçar a presença de Al Pacino e Robert De Niro pela primeira vez contracenando durante tempo considerável (já que em O Poderoso Chefão 2 eles não dividiram nenhuma cena e em Fogo contra Fogo apenas duas). Pecado imperdoável.


por WALLACE ANDRIOLI GUEDES * 9:16 PM

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[Domingo, Outubro 12, 2008]


Ensaio sobre a Cegueira (Blindness)
Direção: Fernando Meirelles


Fernando Meirelles pode ser acusado de diversas coisas, mas não de acomodado. Isso porque, após o sucesso estrondoso de Cidade de Deus, tanto nacionalmente quanto internacionalmente, o diretor optou por, ao invés de se "entregar" ao cinemão Hollywoodiano, continuar realizando filmes relevantes, esteticamente arrojados e dramaticamente poderosos, como foi o caso de seu trabalho seguinte, o belíssimo O Jardineiro Fiel. E, alcançando novamente grande sucesso de crítica, Meirelles, diante de nova oportunidade de se acomodar em um tipo restrito de cinema, resolveu dar um passo além, absurdamente arriscado: adaptar para o cinema o excepcional romance Ensaio sobre a Cegueira, do vencedor do Nobel de Literatura José Saramago. Para quem já leu tal livro, sabe da dificuldade de transformá-lo em filme, não tanto por sua trama, relativamente simples, mas, principalmente, pela forma com que Saramago constrói sua narrativa e pelo turbilhão de emoções que ela provoca no leitor. Muito mais do que um livro para ser analisado racionalmente, Ensaio sobre a Cegueira é um livro a ser sentido. E esse era o grande desafio de Fernando Meirelles ao adaptá-lo para o cinema. No entanto, vendo o filme Ensaio sobre a Cegueira, pode-se dizer que, em boa medida, o diretor conseguiu o que parecia impossível: vencer esse desafio. É bem verdade que, nesse caso, o livro é melhor do que o filme (e aqui, não tanto por determinados cortes feitos por Meirelles e pelo roteirista Don McKellar, mas justamente pela dificuldade em reproduzir em imagens as emoções geradas pela obra de Saramago), uma vez que o diretor acaba adotando uma postura em alguns momentos demasiadamente fria com relação à história contada, não permitindo que o espectador se envolva tanto com aqueles personagens como acontece ao ler o livro (o que acaba fazendo com que não lamentemos o destino de alguns personagens e com que não fique muito claro determinadas escolhas de outros, como no que diz respeito àquela envolvendo os personagens de Danny Glover e Alice Braga, já nos momentos finais do filme). No entanto, é mais verdade ainda que Meirelles conseguiu, com um imenso respeito ao material original, fazer um filme de certa forma autônomo deste, que tem seu próprio brilho. Ainda que em grau menor se comparado com a obra de Saramago, Ensaio sobre a Cegueira, o filme, é uma experiência profundamente intensa, tensa, emocionante e impactante. Conta com um elenco primoroso (onde o destaque maior, como era de se esperar, é Julianne Moore, uma vez que tem nas mãos uma das personagens mais fascinantes da literatura recente) e com opções estéticas de Meirelles e de seu diretor de fotografia César Charlone que beiram a genialidade (especialmente nas cenas em que o espectador experimenta a sensação da "visão" dos cegos, com os olhos como que "mergulhados em leite"). É nesse sentido, em muito, que Ensaio sobre a Cegueira se torna um grande filme: ao se aproximar de um cinema mais sensitivo, que funciona muito mais como uma experiência sensorial (e, conseqüentemente, emocional) do que racional, exatamente como havia feito José Saramago. Talvez tenha sido por isso que o autor tenha se emocionado tanto ao ver sua obra ser transformada em filme, por ter visto a essência de sua obra ser captada com tamanha perfeição.



por WALLACE ANDRIOLI GUEDES * 4:58 PM

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[Sábado, Outubro 11, 2008]

OUTROS FILMES - SETEMBRO

Esses foram os filmes que vi em setembro e que ainda não haviam sido comentados aqui:


À Meia-Noite Levarei sua Alma
Direção: José Mojica Marins


O Estranho Mundo de Zé do Caixão
Direção: José Mojica Marins


Festa de Família (Festen)
Direção:Thomas Virtenberg


O Ódio (La Haine)
Direção: Mathieu Kassovitz


10.000 a.C. (10.000 B.C.)
Direção: Roland Emmerich


Teorema (idem)
Direção: Pier Paolo Pasolini


Cleópatra
Direção: Júlio Bressane



Parece ser consenso que não dá para exigir muito dos filmes de José Mojica Marins, especialmente de seus primeiros trabalhos (levando-se em conta que o recente Encarnação do Demônio já contou com um requinte até então inédito na carreira do diretor), como esses À Meia-Noite Levarei sua Alma e O Estranho Mundo de Zé do Caixão. Tendo-se isso em mente, se torna uma missão mais fácil reconhecer os méritos que o mestre do terror no cinema brasileiro tem nesses seus dois filmes. O primeiro é o melhor deles. É quando Mojica apresenta, pela primeira vez, o personagem que o tornaria célebre, apresentação essa feita até com uma certa inocência, uma vez que os atos de Zé do Caixão que aqui chocam a sociedade em questão são bastante leves, se comparados aos do filme mais recente, feito em um contexto muito diferente. Mas o que chama realmente atenção é que Mojica, cercado por atores claramente amadores, se torna, surpreendentemente, o dono do melhor desempenho do filme, criando uma figura interessante e instigante. É um filme simples, ingênuo em determinados momentos, e feito de forma bastante rústica. Mas que encanta justamente por isso tudo. Já não se pode dizer a mesma coisa do segundo. Dividido em três pequenas histórias, O Estranho Mundo de Zé do Caixão acaba sendo por demais irregular. E isso se dá principalmente pelo fato de as duas primeiras partes do longa serem bastante previsíveis, o que acaba enfraquecendo os contos bastante. Já a terceira, denominada "Ideologia", ainda que também previsível, ganha pontos ao colocar Mojica em cena, aqui interpretado um suspeito professor Oãxiac Odez, e ao apresentar cenas dantescas de tortura e violência, que revelam o espírito transgressor do cinema de Mojica.
Filme mais importante e marco inicial do polêmico movimento Dogma 95, Festa de Família é uma experiência devastadora. Thomas Virtenberg (que depois faria o horroroso Dogma do Amor, mas se recuperaria com o ótimo Querida Wendy) utiliza-se dos pressupostos de tal movimento de forma excepcional, para criar um drama poderoso, sufocante e angustiante. É impressionante como todas as regras criadas pelos cineastas dinamarqueses se encaixam com perfeição nos objetivos de Festa de Família, levando à comprovação (ainda que não definitiva) da tese deles de que um cinema mais "naturalista" passaria com maior veracidade as emoções da vida humana. Isso porque tudo em Festa de Família beira o brilhantismo. Desde o elenco, impecável, passando pelo roteiro, simples mas certeiro e contundente, chegando às opções estéticas, que, dando a impressão de "amadorismo" na filmagem, transmitem com maior precisão o sentido de registro daquela realidade. Uma pequena obra-prima que, curiosamente, acabou se tornando maior do que o movimento da qual surgiu.
Belo trabalho na direção do também ator Mathieu Kassovitz, O Ódio é um dos melhores filmes existentes acerca da presença de imigrantes africanos e asiáticos na Europa e da tensão que perpassa as periferias das grandes cidades do continente, especialmente da Paris do filme. Kassovitz filma essa periferia com impressionante desenvoltura, demonstrando conhecimento daquilo que está retratando e respeito pelas culturas que ali se formam. Nesse sentido, o diretor consegue transformar o trio de protagonista em personagens altamente identificáveis para o espectador que, mesmo que não compartilhe daquela realidade, consegue compreender, e de certa forma compactuar, com o que move aqueles jovens. Mas é na contrução do clima de tensão crescente que permeia a narrativa de O Ódio que Kassovitz tem seu maior acerto. Ele compreende que, antes de tudo, é a opressão das instituições oficiais sobre aqueles grupos sociais que geram tamanho ódio e, com o auxílio de uma bela e sufocante fotografia em preto e branco e de uma narrativa minuciosa e estruturada em cima de uma contagem de tempo (o que torna a sensação de que algo terrível está para acontecer ainda mais palpável), cria uma obra que sintetiza essa "luta de classes" que atinge o coração da França. Uma pequena jóia, que precisa ser mais vista, especialmente por continuar, mais de dez anos após seu lançamento, extremamente atual.
Bastou um pequeno acerto na carreira (O Dia Depois de Amanhã), que levou-o a ganhar um pouco de credibilidade, para Roland Emmerich já entregar, logo em seguida, outro filme pavoroso, esse 10.000 a.C., cuja existência é mesmo difícil de compreender. Tudo, simplesmente tudo nesse filme de Emmerich está errado, com o resultado alcançado, no mínimo, constrangimento: o elenco é fraquíssimo, os personagens são absurdamente rasos (e possuem nomes risíveis, que não ajudam na tarefa já difícil de levá-los a sério, como Tic Tic ...), as cenas de ação são mais do mesmo e a história e simplesmente um acúmulo de clichês mal-conjugados do cinema épico e de aventura, numa miscelânia histórica difícil de entender. Quando um filme, que não pretende ser uma comédia, só consegue levar o espectador aos risos, há algo de errado com ele. Em suma, 10.000 a.C. é uma grande perda de tempo, que só serve para nos lembrar o quanto Roland Emmerich é um diretor medíocre.
Clássico da filmografia de Pasolini e do cinema da década de 1960, Teorema é um filme ousado, transgressor, subversivo e que reflete, com enorme clareza e engajamento político, o momento em que foi produzido. Lançado no efervescente ano de 1968, o filme é uma ácida crítica do diretor italiano à família burguesa e seus valores, apresentada com uma assustadora fragilidade e superficialidade, facilmente destruída por um elemento externo, estranho e causador de mudanças (o "anjo" vivido pelo então jovem Terrence Stamp). Alegórico ao extremo, o que acaba gerando cenas marcantes (especialmente aquelas envolvendo a personagem da empregada da família retratada) Teorema é um filme rico em suas minúcias, e que consegue ser crítico, contundente e impactante sem necessariamente ser explícito (como outros filmes de Pasolini, especialmente o já mítico Saló).
Cleópatra foi meu primeiro contato com o cinema de Júlio Bressane e devo confessar que não foi uma experiência das mais fáceis. Intimista, silencioso e excessivamente autoral, o filme é um tanto cansativo, além de poder ser, para um expectador desavisado, extremamente irritante. Mas, reconhecidas todas essas dificuldades, devo revelar que me encantei profundamente com Cleópatra. É impressionante a forma como Bressane, mesmo sem realizar uma superprodução épica, apostando em uma atmosfera intimista e mergulhada na psicologia de seus personagens, consegue fazer um filme emocionalmente poderoso, que leva o espectador que sobrevive até o final uma sensação de ter participado de uma experiência épica e emocional única. E é bem verdade que, para isso, o veterano diretor conta com os ótimos desempenhos de Alessandra Negrini e Miguel Falabela, a primeira passando com perfeição o sentido enigmático e sedutor de sua personagem, enquanto o segundo cria, de maneira inusitada, um humano e comovente Júlio César. Além disso, creio que o cinema de Bressane faz parte de um tipo de cinema que cada vez se faz menos no Brasil, mas que tem um grande valor que não deveria ser esquecido: um cinema verdadeiramente underground, ousado, experimental, autoral. Em meio aos grandes avanços alcançados pela filmografia nacional, ainda me parece haver espaço para artistas como Júlio Bressane.


Melhor: Festa de Família
Pior: 10.000 a.C.


por WALLACE ANDRIOLI GUEDES * 1:03 AM

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[Quinta-feira, Outubro 02, 2008]

Missão Babilônia (Babylon A.D.)
Direção: Mathieu Kassovitz


Em alguns pontos de sua premissa, Missão Babilônia lembra a obra-prima Filhos da Esperança, de 2006. Mas é só até aí que vai a semelhança entre os dois filmes, e isso é uma pena. Preferia assistir a uma cópia do longa de Alfonso Cuarón do que a essa bomba de Mathieu Kassovitz (e é lamentável ver o diretor e ator francês atingindo um nível tão baixo, ainda mais se levar em conta que assisti recentemente ao excelente O Ódio, primeiro trabalho de Kassovitz na direção). Tudo, simplesmente tudo em Missão Babilônia está fora do lugar, tudo é completamente constrangedor e sem sentido. Tudo bem, há uma ou outra coisa que não são tão ruins, como, por exemplo, o visual da cidade de Nova York, cuja primeira aparição em ocasião da chegada dos protagonistas a ela é bastante interessante, lembrando em muito o visual da Los Angeles de Blade Runner (e sei que deveria ir para o inferno cinematográfico por colocar a obra máxima de Ridley Scott no mesmo texto do filme de Kassovitz). Mas é só isso. De resto, o filme é uma bomba do início ao fim: a trama é muito mal conduzida, confusa e sem sentido; os personagens são muito mal desenvolvidos, totalmente artificiais em sua supostas motivações e sentimentos; as cenas de ação são ruins, pouco inspiradas; e, para terminar, o elenco, que conta com bons nomes, é um desastre completo, a começar por um deslocado Vin Diesel, passando por uma irritante e péssima Mélanie Thierry, até chegar às participações no mínimo constrangedoras de Charlotte Rampling, Lambert Wilson e, principalmente, Gérard Depardieu (cuja cena final de seu personagem é absolutamente ridícula). Lamentável em todos os aspectos, Missão Babilônia parece ser um daqueles filmes que, infelizmente, acabam tendo que existir para nos lembrar que, se o gênero ficçao-científica, quando levado a sério, pode produzir obras-primas como as duas citadas aqui (Blade Runner e Filhos da Esperança), pode também dar vida a verdadeiras bombas, quando trabalhado com a mera intenção de lucrar em cima de um visual futurista e de cenas de ação, supostamente, eletrizantes, pouco se preocupando com o desenvolvimento narrativo e dramático do filme produzido.



Hellboy 2: O Exército Dourado (Hellboy 2: The Golden Army)
Direção: Guillermo Del Toro


Guillermo Del Toro vive mesmo um momento iluminado em sua carreira. Pois, se com um material fenomenal como o de O Labirinto do Fauno ele foi capaz de fazer uma pequena obra-prima, mesmo com um material claramente inferior, como o dos filmes da série Hellboy, ele consegue entregar um trabalho de alta qualidade, que cumpre suas ambições. Hellboy 2: O Exército Dourado é tudo o que o filme de 2004 era, e um pouco mais. Divertido, despretensioso, empolgante e com um protagonista absurdamente carismático, essa continuação se torna um avanço por Del Toro contar aqui com algo que ele não contava no primeiro Hellboy: uma maior liberdade criativa. Graças a ela, o diretor promove um desfile de criaturas deliciosamente bizarras, que nos remete diretamente à magia proporcionada por filmes como Star Wars e O Senhor dos Anéis, o que não é pouco. E, além disso, há um acréscimo nos efeitos visuais e nas cenas de ação, o que acaba sendo fundamental para o êxito de um filme como esse. Entretanto, é no desenvolvimento de seus personagens que Hellboy 2 se torna, de fato, um ótimo filme. Mais especificamente, no desenvolvimento de seu protagonista. Hellboy, vivido novamente com enorme talento por Ron Perlman, continua sendo um personagem absolutamente cativante, pelo qual o espectador sente prazer em torcer, tanto no que diz respeito aos desafios que enfrenta enquanto agente secreto, quanto na sua relação com Liz Sherman (Selma Blair, bastante competente). Mas o que mais chama atenção e desperta grande interesse em uma possível terceira parte da saga é a cena em que a personagem de Blair conversa com a Morte (mais um figura com visual assustador criada por Del Toro, que em muito lembra o Homem Pálido de O Labirinto do Fauno), e que abre possibilidades instigantes para o futuro do herói (que pode, muito bem, deixar de ser considerado como tal, levando-se em conta sua natureza demoníaca). Com isso, Del Toro mostra, mais uma vez, que em seu cinema de fantasia não há espaço para personagens unidimensionais (aliás, até mesmo na construção de seu vilão, Príncipe Nuada, o diretor dá exemplo de como evitar maniqueísmos), fazendo filmes que, mesmo que sob um verniz de puro espetáculo, possui sempre algo a mais.


por WALLACE ANDRIOLI GUEDES * 8:46 PM

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[Quarta-feira, Setembro 24, 2008]

Linha de Passe
Direção: Walter Salles e Daniela Thomas


Há em Linha de Passe, próximo ao seu final, uma cena em que determinado personagem, que compõe a família de protagonistas, após cometer um crime, força a vítima, um homem rico, membro da elite, a olhá-lo de frente, perguntando-o, enfático e emocionado, se este o vê. Apesar de o filme de Walter Salles e Daniela Thomas ser uma obra muito mais rica do que isso, talvez possa-se dizer que essa cena resume os intentos da dupla de diretores ao realizar Linha de Passe. Porque esse é um filme que pega como modelo aquela família retratada, de cinco pessoas, para retratar algo muito maior, uma grande parcela das populações urbanas brasileiras que são simplesmente "invisíveis" às elites que mandam economicamente e politicamente nesse país. Ser visto, nesse contexto, é um ato de redenção, de catarse, ainda que, para isso, tenha-se que passar pelo viés da criminalidade. Mas é bem verdade que, antes de qualquer pretensão de análise sociológica da sociedade brasileira, Linha de Passe é cinema, e cinema de primeira. É curioso como Walter Salles, que é um grande diretor (Central do Brasil e principalmente Diários de Motocicleta estão aí para comprovar isso), se torna muito maior quando tem ao seu lado sua freqüente parceira Daniela Thomas. Há mais de dez anos, os dois juntos fizeram um dos melhores filmes que o cinema brasileiro já produziu, a obra-prima Terra Estrangeira. E agora, com Linha de Passe, a dupla se supera, entregando seu melhor trabalho (o que, levando-se em conta a imensa qualidade do longa de 1995, não é pouco). Falei lá em cima sobre uma suposta pretensão de análise sociológica, o que de fato há, mas talvez possa-se falar aqui também de um viés antropológico no cinema de Salles e Thomas. Os dois se infiltram no cotidiano dessa população "invisível", mergulham fundo em seus dramas e sonhos, e criam personagens que, ainda que obedeçam determinados clichês do cinema nacional (são claros os ecos do Cinema Novo aqui), possuem um grau de verossimilhança assustador. E aqui, como comumente acontece nos filmes da dupla, há um elenco impecável, onde fica muito difícil destacar algum nome: da magnífica e emocionante Sandra Corveloni, ao ainda excepcional (dez anos depois) Vinícius de Oliveira, passando pelo adorável e carismático Kaique de Jesus Santos, a sintonia entre os atores que protagonizam Linha de Passe é impressionante. Mas, acima de tudo, o que Salles e Thomas evitam fazer, e que é o que torna sua obra tão magnífica e grandiosa, é julgar esses personagens. Eles são os "heróis" do filme sim, mas são, antes de qualquer coisa, seres humanos, completamente falíveis e, por isso mesmo, altamente identificáveis com o espectador, que torce por seu sucesso, sofre com seu sofrimento e com determinados atos cometidos por alguns deles, e passa pelo mesmo processo de catarse melancólica e pessimista pelo qual cada um deles, cada qual a seu modo, passa no epílogo do filme. Epílogo que não encerra, de forma alguma, a trajetória daqueles cinco personagens, pois o que esses exemplos de brasileiros "invisíveis" mais fazem nessa vida é simplesmente continuar andando, como explicitam, de diversas formas, Salles e Thomas.


por WALLACE ANDRIOLI GUEDES * 3:47 PM

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[Segunda-feira, Setembro 22, 2008]

Os Desafinados
Direção: Walter Lima Jr.


Em boa parte de sua narrativa, Os Desafinados é um bom filme. Nada mais do que isso. Mas, em outros, Walter Lima Jr. perde a mão de tal forma, consegue tornar tudo tão artificial, que o filme por pouco não se torna uma perda de tempo. Na verdade, o grande problema de Os Desafinados está justamente nessa sua irregularidade. O "miolo" de sua narrativa, quando os personagens vivem suas desventuras em Nova York, é uma experiência bastante agradável. Nesses momentos, Lima Jr. conduz seu elenco com imensa competência, criando momentos simples, mas muito bons dramaticamente (como, por exemplo, as cenas que retratam a descoberta da personagem de Cláudia Abreu sobre a vida conjugal do sujeito vivido por Rodrigo Santoro, bastante verossímeis no que concerne à expressão dos sentimentos ali em jogo), levando o espectador a se envolver e se encantar com aquele grupo de amigos. Nesse ponto, quem merece elogios são, principalmente, Santoro (o melhor do elenco, revelando novamente a impressionante diferença entre sua atuações em português, geralmente muito boas, e seus fracos desempenhos em inglês) e Ângelo Paes Leme (que emociona em alguns momentos, no retrato de um sujeito apaixonado mas consciente da impossibilidade de realização dessa paixão), já que a figura de Selton Mello é bastante subaproveitada, com o ator vivendo o mesmo tipo que, volta e meia, ele encarna, especialmente na televisão, do sujeito rebelde, amalucado. No entanto, tanto em todas as cenas passadas no presente quanto naquelas que se passam no Brasil após o retorno dos personagens, o filme desanda. Especialmente ao trazer os amigos já velhos, Os Desafinados é marcado por uma artificialidade impressionante, contando com atores fora do tom, com cenas ruins, mal dirigidas, com uma dublagem constrangedora para o ator que vive o personagem antes interpretado por Mello, e com um final forçado, bobo e que é a cereja no bolo de um filme frustrante. Em certo ponto no início de Os Desafinados, o Dico de Selton Mello analisa a bossa nova, criticando-a por ser muito cheia de "inhos" e "inhas" (tardinha, violãozinho, banquinho etc.). Talvez essa definição também sirva para o filme de Walter Lima Jr., que é apenas bonitinho, quando poderia ser muito, muito mais.


por WALLACE ANDRIOLI GUEDES * 10:29 AM

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